Coisa estranha na vida é o coração e essa sua mania de
ficar se agitando no peito, como se tivesse vontade própria. Ele e esta
sua rebeldia, não respeita a lógica, a razão, insiste que sente e sabe
das coisas. Tal qual criança teimosa que quer brincar onde não deve. Ela
vai e brinca, se nada de ruim acontece, ela ri dos adultos. E brinca
outras vezes; na soma geral das brincadeiras sai machucada da maioria,
mas teima em pensar que vale a pena.
Talvez esse seja o problema do coração: ele não cresce. Ele é
indefinido. É músculo com responsabilidade de órgão, é retratado por
todos com forma diferente da que tem. Não tem como o coração não ser
confuso: todos justificam, cientificamente, que as emoções estão no
cérebro, mas é ele quem aperta, chora, quebra, acelera. Como ele vai
acreditar que não é o responsável se é ele que dói para a tristeza e
sorri para a felicidade.
Ele tem seus motivos para julgar-se no controle; ele faz as mãos
suarem, as pernas tremerem, a respiração falhar, a boca gaguejar, o
pensamento se perder. Ele faz todo o corpo mostrar o que ele quer como
prova de que ele é incontrolável; de que ninguém manda nele por inteiro.
Nas vezes que ele dói, é certamente do desejo de toda a gente
fazer com que ele seja reprimido, que pare de se apertar no peito e
fique quieto deixando a vida acontecer. O problema de tudo isso é que
coração proibido de chorar também não consegue sorrir, e um coração
sorrindo ilumina tudo a sua volta. Ele pode fugir, resistir, sentir
medo, mas nada é maior que sua vontade de sentir-se grande, pleno, vivo.
E tudo começa outra vez.
Coisa estranha na vida é o coração e essa sua mania de ficar se agitando no peito, como se tivesse vontade própria.
Coisa triste na vida é não ter o privilégio de ver a felicidade transbordar o coração.
Hoje choveu muito e ainda chove. Mas há pouco mais de uma
hora a chuva era tempestade. Com a queda na energia elétrica, o céu escuro da
rua ainda era mais claro que dentro de casa. Então resolvi olhar a chuva, pois
sempre teve algo que me encantou em tempestades.
Na frente de casa observei no alto da roseira uma flor
solitária. Em outros galhos alguns botões ainda fechados estavam melhor
protegidos; aquela rosa estava desabrochada e vulnerável. Outras duas que a
antecederam poucos dias foram colhidas e decoravam a casa; estavam protegidas e
seguras da instabilidade do tempo. Porém, era aquela que detinha a maior
beleza. Ela conheceu o sol, com ele desabrochou e destacava-se no alto do
galho. Agora, enfrentou uma tempestade muito forte. Poderia parafrasear
Saint-Exupéry dizendo que ela tinha apenas os espinhos para se defender, mas
estaria sendo exagerada. Ela não tem os espinhos que a maioria das rosas tem;
há poucos e pequenos, que nem chegam a machucar. Como compensação, tem pétalas
maiores e mais fortes, que não se deixam cair por pouco.
Enquanto eu refletia a ventania levava a rosa de um lado
para o outro. E ela parecia ostentar certa alegria. Sua beleza aumentava com as
gotas de chuva, que só não eram tão agressivas porque ela teve a humildade de
não se lançar ao jardim, ficou abaixo da marquise que a protegia. Ela previa
que do outro lado da casa, o horizonte já estava mais claro.
PAI,
Ajuda-me a ser como a rosa, que sabe que as tempestades
duram tempo suficiente para limpar e fortalecer, nada mais que isso. Que eu
possa ter a certeza de que são poucos os pingos que me atingem e que nenhum mal
podem me causar se eu me mantiver sob a tua proteção.
Quero sempre desejar ser a rosa que ficou na rua, que está
vivendo na instabilidade do tempo, aprendendo a confiar. Quero, como ela, ter a
certeza do horizonte claro que virá e secará tudo que ficou, fazendo brotar
novas sementes de luz. Quero poder me manter com o mínimo possível de espinhos,
para ser forte sem ferir quem se aproximar. Mesmo que as intenções não sejam
boas, que as atitudes busquem me atingir, auxilia-me para que as minhas
intenções e sentimentos sejam bons e fortes como as pétalas e meus defeitos e
insatisfação sejam cada vez menores, como os espinhos.
E obrigada pela rosa, por me permitir enxergá-la e aprender
com ela.
Às vezes tudo é complicado, talvez porque este nosso tudo não seja nada perante o mundo"
Assim começava meu primeiro texto a ser publicado, na verdade, um poeminha da 7ª série que saiu no jornal do colégio. Na época, eu ainda pensava em medicina, mas a sensação trazida pelas minhas palavras impressas para "todo mundo" ler, marcaram o início da mudança da atual (futura) jornalista. Tanto que ainda lembro, de tanto olhar para o tal jornal!
Achei importante falar isso, para deixar mais explícita um pouquinho da importância deste cara na minha vida. Esse cara que hoje faria 52 anos, mas em 11 de outubro de 1996 deixou muitos fãs em prantos.
Eu posso consider-me um fã póstuma de Legião Urbana, mas lembro da notícia de 96 como se fosse hoje. Estava na casa da minha madrinha, cujo filho mais velho sabia acho que todas as músicas até de trás para frente. Lembro dele chorando como eu nunca tinha visto alguém chorar. Foi este meu primo que me apresentou Legião quando eu ainda era criança. Ele já tocava violão na época e quando eu estava lá ia para o quarto dele e ele tocava as músicas pra mim. De todas a que mais lembro é Faroeste Caboclo, achava incrível porque contava uma história, mesmo sem entender muito bem o que queria dizer.
Já um pouco mais velha, lá pelos 12 (só dois anos, mas muita diferença nessa idade), meu pai trocou de carro e junto veio perdida uma fita k-7. Comecei a ouvir no meu walkman (quem ainda lembra o que é isso?) e fiquei impressionada com as letras. Tinha músicas como Tempo Perdido, Andrea Doria, Geração Coca-cola. Esta última prendeu minha atenção de forma especial. Até que fui mostrar para a prima que gostava "dessas músicas", a Larissa, para ver se ela conhecia. Ela me disse: "isso é Legião Urbana, tu gostou?" "Eu adorei" Lembro até agora o brilho de satisfação nos olhos dela! Numa breve sequência de meses, estava ela me apresentando, mais músicas, mais discos (e cd's, pois ela já tinha um rádio moderníssimo que tocava discos, fitas e cd's!) algumas rádios e um programa em especial, um tal Pijama Show.
Eu virei fã de Legião. Nunca lamentei ser impossível estar em um show ou algo do tipo, na verdade, até me sentia um aliviada por saber que não iria sofrer tanto quanto meu primo com a despedida do ídolo. Conheci todas as músicas, decorava as falas entre as faixas das versões ao vivo, enfim, essas coisas que fãs fazem. Fase de adolescência meio deprê, como era normal para a maioria dos adolescentes, talvez ainda seja. E continua o que escrevi na 7ª série:
"Os rios correm em busca do mar e suas águas se misturam. A humanidade vive sua estupidez e ninguém sabe que eu existo. A gente ignora as pequenas coisas, sem ver que somos até menores que elas. NADA"
Eu ouvia as músicas o tempo todo e assim seguiu durante uns três anos. Um dia diminuí e substituí, naturalmente, como deve ser. Mas absolutamente todo meu gosto musical devo ao Renato, pois até o que é bem diferente, conheci pelo que a Legião me trouxe, por saber que ouvir o desconhecido pode trazer surpresas, por ouvir uma rádio esperando uma música dele e conhecer outras novas. Raramente ouço Legião hoje, não porque não gosto, mas porque ela não é mais para esta fase. Há pouco ouvi, no Pijama Show, que agora é de manhã. Ouvi o Éverton Cunha falando no Renato e foi inevitável não lembrar de tudo isso. Se estou ouvindo ele falar, é justamente por causa dessa banda.
Não acho que o Renato sirva como exemplo para ninguém, mas discordo de quem o trata como vilão. Eu fui fã dele e nem por isso segui o que ele fazia. Há uma grande diferença. As músicas marcaram a minha vida e muitas delas ainda têm coisas novas a me dizer. Não concordo com a postura autodestrutiva dele, mas reconheço em muito das suas músicas mensagens bonitas e positivas, que comprovam a existência de algo bom a passar para as pessoas. Legião não era uma banda musicalmente boa, o sucesso precisava ter coisas boas para oferecer.
Parece estranho falar sobre mensagens boas tendo como inspiração meus escrito da escola que transcrevi aqui. Por isso, acho importante explicar o início e mostrar o fim dele. Na verdade, minha professora levou a música pais e filhos para a aula e pediu para que escolhêssemos um trecho para escrever sobre ele. A maioria escolheu o belíssimo refrão "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã". Eu lembrei de uma conversa que aconteceu um tempo antes e aproveitei para registrar a ideia.
A conversa foi entre eu e a Larissa, estávamos em Rosário do Sul, ela me olhou e cantou: "Sou uma gota d'água, sou um grão de areia". Ao que completou: "Uma gota d'água, um grão de areia, pensando assim, a gente não é nada" E eu disse: "Mas se não fosse cada gota d'água, nunca se formaria o oceano".
Com essa ideia e baseada neste trecho da música, encerrei o pequeno poema:
"Mas pense um pouco, suas ideias e planos são muito importantes. Se não fosse cada gota d'água nunca se formaria esse imenso oceano. TUDO"
Obrigada ao Renato Russo por tudo que passava em suas músicas. Para mim, só as coisas boas ficaram, essa foi a minha escolha.
"Já não me preocupo se eu não sei por que.
Às vezes, o que eu vejo, quase ninguém vê
E eu sei que você sabe, quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você."